domingo, 8 de abril de 2012

Contagion (2011, Soderbergh)


Com um nome sonante por detrás da câmara (Steven Soderbergh) e com um elenco de luxo em frente dela (Lawrence Fishbourne, Kate Winslet, Marion Cotillard, Matt Damon, Jude Law, Gwyneth Paltrow entre outros), Contagion é um filme eficaz durante a sua duração mas que não é necessariamente marcante.

A sua abordagem é bastante clínica e limita-se a expor «factos», não dando grande margem para o desenvolvimento das personagens que se encontram no epicentro de uma terrível epidemia – o que por um lado é compreensível. Com os vários subplots que compõem Contagion, precisaríamos de um filme incrivelmente mais longo para podermos ver alguns tons de profundidade nas personagens. O que me leva ao ponto que mais apreciei no filme: a montagem. Levada a cabo por Stephen Mirrione, a fluidez da narrativa é muito bem conseguida, e não são criados, por uma única vez, momentos despropositados e que em nada acrescentam à história. 

Cliff Martinez, compositor da banda sonora, consegue injectar os necessários sentimentos febris de paranóia no seu trabalho, que em grande parte potenciam a atmosfera do filme (juntamente com a sua composição para o filme Drive, podemos dizer que o senhor teve um ano em grande). Quanto ao competente elenco: fazem o seu trabalho, mas nenhum deles se destaca dos demais. Contagion é um filme sólido, interessante e capaz de captar a atenção durante duas horas, mas não perdem nada se optarem não o ver.

sábado, 7 de abril de 2012

Product Placement e a intenção de compra (2)



Continuando o tema levantado aqui, olhemos para a evolução do conceito de Product Placement ao longo da sua história. Quando é que se iniciou?

A integração de produtos – cuja marca é amplamente visível – em cenas de filmes é uma técnica que remonta para os tempos primordiais de Hollywood, até mesmo antes da Primeira Grande Guerra Mundial (Galician, 2004): Em 1916, o estúdio LKO/Universal produziu um filme mudo com o título explícito She Wanted a Ford. Em 1929, Alfred Hitchcock filmou uma particular cena que denotava um luminoso reclame da marca Gordon’s Gin, no seu Blackmail. Posteriormente, na sátira de Stanley Kubrick Dr. Strangelove: Or How I learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964) uma máquina de venda de Coca-Cola é proeminentemente exposta, tornando-se relevante para a narrativa.

A inclusão de produtos dentro de filmes intensificou-se durante os anos 30, quando os estúdios “devagarmente desenvolveram a ideia de promover produtos em filmes enviando tranches de argumentos (detalhadas shot-by-shot) com oportunidades de comunicação claramente indicadas a marketeers” (Galician, 2004). A Metro-Goldwyn-Mayer foi o primeiro estúdio a abrir o seu próprio escritório de product placement, em 1939 e a Walt Disney começou a comercializar merchandise dos seus, na altura, mais populares filmes.

Contudo, o interesse dos profissionais de marketing aguçou mais tarde. O momento que activou esse interesse prende-se com a estreia do filme de Arthur Penn, Bonnie and Clyde (1967). Nesta altura, a venda de boinas femininas aumentou exponencialmente nos EUA. Sugere-se que parte deste femómeno tenha ocorrido por causa da explosiva obra de Penn, uma vez que nesse filme, a Faye Dunaway “orgulhosamente enverga a sua boina ao longo da duração do filme” (Lehu, 2009). No entanto, o evento que elevou a atenção a este tema a altos céus foi precisamente o tão acarinhado filme de Steven Spielberg – E.T. The Extra-Terrestial, em 1982: Numa particular cena, o actor Henry Thomas usa uma marca de doces – Reese’s Pieces da Hershey – para atrair o E.T. O filme foi um grande sucesso junto do box-office, gerando um total de 359 milhões de dólares em receitas. Três meses após a estreia de E.T., a Hershey anunciava que as vendas dos doces retratados no filme aumentaram 65% (Gregorio e Sung, 2010) durante esse período.


Testemunhando o impacto comercial do product placement, os marketers começaram a estar cada vez mais envolvidos com esta forma de comunicação. Em 1998, a audiência norte-americana para filmes de Hollywood estimava-se em 1,5 mil milhões de espectadores, enquanto que assumia-se que a audiência internacional fosse o dobre, 3 mil milhões, portanto. Apercebendo-se da enorme audiência que os filmes provenientes de Hollywood tinham, os marketers concluiram que estes filmes serviam como excelentes veículos de comunicação, passíveis de influenciar consumidores um pouco por todo o mundo. Em 1998, cerca de 1.000 marcas incorporavam o product placement nas suas estratégias de comunicação.

E nos dias de hoje?

Fontaine (2006) argumenta que a comunicação feita nos meios tradicionais perdeu a sua outrora eficácia de ouro. Com a evolução do comportamento do consumidor, hoje em dia os consumidores são cada vez mais conscientes, difícies de impressionar, complexos e selectivos. Num mundo em que estes são constantemente bombardeados com estímulos comunicacionais, é nos impossível processar toda a informação de que somos alvo diariamente. Este contexto suporta a necessidade de usar formas diferentes de comunicação. Com a saturação dos media tradicionais, a indústria do product placement viu o seu ritmo de crescimento acelarar intensivamente, nestes últimos anos.

Sendo alvo de elevados investimentos, o product placement é agora uma billion-dollar industry. Entre 2004 e 2008, o investimento nesta forma híbrida de comunicação beneficiou de uma franca expansão, registando um CAGR (Compound Annual Growth Rate) de 27,1%. Em 2009, as marcas nos EUA investiram 3,61 mil milhões de dólares nesta técnica de comunicação – representando o primeiro decréscimo no investimento nesta prática. Apesar deste declínio ser facilmente explicado pela crise económica que tem assolado a economia mundial, o investimento em product placement é expectável de assistir a um forte crescimento nos próximos 5 anos.

To be continued.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Chinatown (1974, Polanski)



You’ve got a nasty reputation Mr. Gittes. I like that.
Noah Cross

Um homem soluça ao descobrir que a sua mulher o engana. É Jake Gittes (Jack Nicholson) que lhe mostra as fotos após ter sido contratado para levantar as suspeitas que esse homem tinha. Private Investigator. A intriga está tão presente na vida de Gittes que o seu passado assola constantemente a sua mente. Chinatown. Algo correra mal.

“Mrs. Mulwray” contacta Gittes para resolver aquele que seria apenas mais um caso de traição matrimonial. Um misterioso caso que depressa se torna mais que uma simples e típica cena de adultério. Los Angeles, uma cidade marcada por uma severa seca. A construção de barragens é planeada para catapultar e impulsionar a cidade dos anjos, ainda que isso ocorra a custo do desespero de terceiros. Ainda assim, o ciclo de escoamento das águas na metrópole californiana assume padrões algo estranhos. Não é sistemática.

Evelyn Mulwray. Femme fatale. A entrada de Evelyn na vida de Jake acontece de forma abrupta. Primeiro com o intuito de tirar a pratos limpos tudo o que vem nos jornais sobre o caso do seu marido. Mas é uma relação que se mantém, em grande parte, por insistência de Gittes. A sua longa experiência no sub-mundo da investigação privada diz-lhe o contrário daquilo que lhe é dito. Chinatown. Um lugar que pesa.

Seja em momentos mais intimistas onde a frágil natureza de Evelyn Mulwray resvalece, seja em momentos amplamente marcados com uma crescente aura misteriosamente sinistra que paira nas imagens que compõem o filme, a obra de Roman Polanski é acima de tudo, um fulcral exercício na escrita de argumentos. E isso é particularmente visível no portentoso clímax do filme. E que momento esse! A tenebrosa sirene. A lúgubre noite. A impunidade do mau carácter a reinar por todo o caos.  Isto é Chinatown, em todo o seu esplendor.

Forget it Jake. It’s Chinatown

E enquanto uns dizem para esquecer e pôr tudo atrás das costas, prefiro não o fazer. Prefiro ter todo o brilhantismo de Chinatown bem presente na mente. Prefiro lembrar-me da assombrosa interpretação de John Huston que, com uma presença muito limitada, consegue roubar o espectáculo. Prefiro lembrar-me da icónica revelação – uma autêntica bomba atómica. Prefiro lembrar-me da suave maneira de como o mistério se desenrola. Prefiro lembrar-me do imponente final. Prefiro lembrar-me de Chinatown.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Peeping Tom (1960, Powell)


 
“Do you know what the most frightening thing in the world is? It's fear.”

A obsessão de um homem pela sua câmara. Pelo medo. Realizado por Michael Powell (a minha segunda incursão pelo trabalho deste realizador – tendo a primeira sido BLACK NARCISSUS), Peeping Tom é um interessante exercício que explora o psicológico de um assassino.

Fortemente marcado pelo facto de ter servido como cobaia nas experiências do seu pai, Mark desenvolve uma forte obsessão pelo medo. Anseia captar o medo na sua forma mais pura através da câmara que anda sempre consigo. Filma as suas vítimas nos breves instantes em que encaram a Morte.

É composto por uma respeitável fotografia, por uma banda sonora que serve o propósito de espremer a máxima tensão dos momentos que a exigem e por uma realização sólida. Contudo, a nível de argumento, senti existirem algumas... pontas demasiado soltas que me levaram a distanciar-me do filme, diminuindo o efeito potencial que poderia ter tido em mim enquanto espectador (mas gostei particularmente da forma de como a câmara surge como um catalisador da acção, de como é que consegue moldar de forma vincada o comportamento da personagem). Será um daqueles filmes que irei apreciar mais há medida que o vá revisitando? Parte de mim acha que sim, a outra acha que não. É uma questão de voltar a pegar nele daqui a algum tempo.

No entanto, e apesar de ser inferior à icónica obra de terror de Hitchcock lançada no mesmo ano – PSYCHO –, tenho a sensação de que os dois até se complementam minimamente bem, e que dariam uma boa double-feature.
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